O PROPRIETÁRIO
Ouvi uma história, certa vez, onde um rei, poderoso e muito rico, pretendia chegar à iluminação. Consultou toda sorte de magos e gurus e foi alertado para que olhasse para sua prepotência, talvez gerada pelo seus status e as muitas posses.
Considerou então a possibilidade de passar o trono a seu filho e despojar-se de todos os seus bens. Assim o fez, e sai a caminhar pelo mundo apenas com a roupa do corpo. Dormia onde podia, comia o que lhe davam, e meditava constantemente sobre a liberdade de nada mais possuir. Não precisava administrar mais nada, não se preocupava com a possibilidade de perder seus bens e valores, que fossem roubados ou não se multiplicassem.
Sentiu a felicidade de viver na simplicidade, sem o peso de tantas cobranças e responsabilidades. Admirou-se de si mesmo, de sua coragem ao trocar tudo aquilo que possuía por uma vida em busca da iluminação.
Então parou um dia num lugar muito distante de seu antigo reino. A paisagem daquele lugar lhe trazia paz de espírito. Um rio de águas límpidas corria à sombra das árvores que, carregadas de frutos exuberantes, lhe alimentavam. Encontrara o paraíso. Um tronco de velha árvore jazia ao lado do rio. Às vezes ele sentava-se no tronco a olhar para o rio e sentir a felicidade de sua vida simples. Às vezes, descia do tronco e entrava no rio para banhar-se.
Foi quando um viajante, também encantado com aquele lugar, resolveu parar e sentou-se no tronco ao lado do rio e ficou observando o velho rei dentro d’água. O rei, distraído so se deu conta da presença do estranho ao sair do rio. Vislumbrou o viajante sentado sobre o tronco onde ele costumava ficar quando meditava. Sentiu profunda raiva daquele estranho, e aproximou-se , irritado e gritando:
- Saia daí. Esse tronco é meu!
Só então se deu conta que abdicara de tudo o que era material, querendo livrar-se da prepotência que suas posses lhe levava a ter. Mas ainda sem nada ter, naquela ocasião, ainda tinha o sentimento de posse de um simples tronco de árvore.
Hoje se fala em reconstrução de valores que teriam sido pervertidos pelo excesso de consumo. O ter sobrepujou-se ao ser, os valores das pessoas passaram a ser medidos pelos sinais exteriores de prosperidade. Mas ainda que a situação econômica das pessoas fosse nivelada, ainda que um tipo de equiparação social fosse feita para que todos possuíssem as mesmas coisas, como se fosse a realização de uma ideia socialista (e utópica), ainda nos apropriaríamos de algo para marcar nossa individualidade.
O rei citado na fábula, assim como todos nós, nunca deixou a disposição interna de se apropriar de algo que o personalizasse. O ter nunca deixou de ser o caminho para que marcasse sua trajetória como indivíduo dentro de sua relação com os outros seres humanos. Creio que para nenhum de nós.
Não apenas bens de consumo. Não apenas objetos. Nos apropriamos de pessoas, também. Nos apropriamos de valores outros que nos dêem destaque entre os demais. Como mães de misses. Quantas pessoas se apropriam de alguém para que através dessa pessoa possam ser reconhecidas individualmente? A esposa de fulano de tal. Quando fulano de tal pensar em deixar a esposa ela terá a mesma atitude raivosa do reizinho egoísta. Ela é dona dele.
Nos apropriamos também da fama. Do nosso bom nome perante a sociedade. Nos apropriamos de tantas coisas palpáveis ou não, por constatarmos, no fundo de nossa alma nosso imenso vazio interior. O que de fato somos, e o que possuímos, na realidade? Quando, olhando pra dentro não vemos valor nenhum que nos destaque dos demais ( e de preferência, nos faça superior aos demais ) nos apropriamos de algo ou de alguém para suprir essa falta de valor interno.
É o homem feio e sem nenhum atributo de personalidade atraente que “compra” a companhia de uma mulher bonita. A beleza dele vai “cobrir” a feiura interna dele. É a mãe frustrada por não ter atingido alguma meta que desejava que tenta se realizar no filho a despeito do que ele queira de fato para sua vida. É o jovem que para se enturmar, faz misérias para obter aquele objeto de consumo que “todos os seus amigos têm”. Mesmo que precise infringir leis os sacrificar alguém para obtê-los.
O proprietário é vazio de si mesmo. Não constrói: vampiriza. Não cultiva: rouba os dons, os valores, as coisas dos outros. Fala-se hoje em leis espirituais, e em como essas leis, observadas atraem prosperidade. Aquilo que é externo pode vir a nós desde que se faça algo para apropriar-se disso. E no entanto somente temos mais daquilo que somos.
Aumentar valores internos constitui o único bem que vai nos trazer alguma coisa externa. O problema que nem todos gostamos da nossa própria natureza individual. Não gostamos de nós mesmos, do jeito que fomos feitos. E assim, atraímos sempre mais de nós mesmos, daquilo que não gostamos, para compensar nos apropriamos das coisas e valores dos outros.
Mas cabe aqui também pensar que mesmo que nossa natureza primordial, nossa essência, não nos agrade de alguma forma, detonando toda essa forma de agir equivocada, ninguém nesse mundo terá a capacidade de ser tão bom quanto nós mesmos quando se trata de expressar a própria natureza. Quem é hábil em alguma coisa, ainda que não goste disse, é a sua natureza. Foi como foi projetado por um Poder Superior. Ninguém será tão bom nessa habilidade para a qual ele foi feito pois essa é a natureza divida dentro dele e ela é imbatível.
Reconciliar-se com sua natureza primordial pode ser o caminho de crescimento. Valorizar a própria capacidade de ser no mundo elimina o vazio interior e prescinde a necessidade de se apropriar de qualquer coisa. Faz deixar de ser eterno coadjuvante da vida e ser o protagonista de sua própria vida. E, de quebra, livra do vampirismo e de qualquer tentativa de apropriação que alguém pretender fazer sobre nós.
Não se deve pensar em mudar ou ser de alguma maneira específica. Mas deixar-se acontecer e reconher em nós o que nos faz realmente especial e diferente de todos. Essa é a nossa mágica. E ela já veio pronta de fábrica.