A PONTE
Há muito tempo eu tive um sonho curioso. Daqueles sonhos que a gente acorda e tem a impressão que ele continua se desenvolvendo. Sonhei que estava numa mata muito bonita, e ouvi barulho de água. Fui na direção do som e encontrei um rio. Sobre ele, uma ponte com o guarda corpo de ferro todo trabalhado como se fosse uma peça feita no século XIX.
A ponte era de madeira e a paisagem era de tirar o fôlego. Quis subir nela. Mas aí acontecia o fenômeno: Pequenas plantas que estavam na extremidade da ponte, cresciam de repente. Enchiam a ponte de arbustos floridos e cheios de espinhos, impedindo a passagem.
Quando eu desistia e voltava atrás, os arbustos desapareciam, e só aumentavam e se avolumavam quando eu me aproximava da ponte. Notei que da água saía som. O mais curioso era isso: eu via na água a sombra de peixes. Um cardume imenso. E os peixes cantavam. Não me lembro mais qual era a música, mas era uma ária lírica.
Aquela paisagem, a música, e o fato de não poder atravessar a ponte de enchiam de ansiedade. Mas eu precisava ficar à margem do rio, apreciando a beleza, sem tocá-la. E em silêncio.
O sonho me acompanhou por semanas. Em vão eu ia dormir pensando nele, para quem sabe continuar sonhando e finalmente conseguir atravessar a ponte. Naquela época eu era apenas uma menina. Até hoje a lembrança deste sonho me acompanha.
Hoje, madura, percebo que aquele sonho era a representação do que é viver. Nem sempre conseguimos atravessar as pontes. Nem sempre conseguimos fazer parte da paisagem. Mas nada impede que possamos apreciá-la. Se dermos ouvido também àquilo que não é provável, como peixes cantando, podemos também ouvir a música da vida.
Temos um costume arraigado de enxergar apenas aquilo que os olhos estão acostumados a ver. O improvável e o impossível nos passa completamente despercebido. Peixes não emitem sons. Mas se não formos impedidos de alguma forma a simplesmente emitir nosso parecer cheio de certezas e continuar adiante, dando nomes conhecidos a bois reconhecidos, nunca saberemos utilizar a fé.
Precisamos parar. Observar a paisagem, sem capturá-la e encaixotá-la com um adesivo que a classifique. Deixar acontecer, não esperar pelo minuto seguinte. Pelo que vem depois. Pelo que achamos que já sabemos como é.
Fiquei observando minha netinha explorando o mundo como quem abocanha um fruto suculento e se espanta com o sabor inesperado. Esta sede de conhecer o mundo e suas inúmeras facetas, a gente vai perdendo pelo caminho. Um belo dia já nem sabemos mais olhar com olhos serenos um ângulo mais ousado da vida. Nos amedrontamos. Não está no script já decorado. Passa a ser uma ameaça qualquer coisa que não podemos classificar porque não conhecemos. Nos fechamos então na torre do preconceito.
Creio que eu deva pedir a Deus, olhos de ver. Apenas isso. Como no sonho, quando fiquei à margem do rio ouvindo a música insólita dos peixes cantores. E apenas ouvi porque fui parada a tempo. Jesus Cristo, numa passagem descrita na Bíblia, quando opera o milagre da multiplicação dos pães e dos peixes, um momento antes de fazer o milagre pediu isso: para que a multidão de acalmasse e se sentasse.
Não pode haver milagres sem fé. E não há fé quando há ansiedade. E a ansiedade nos conta com pormenores tudo, mas tudinho mesmo que pensamos ser as verdades absolutas. E portanto, estrangulada pelas nossas certezas, nossa realidade nunca se modifica. Não há mais lugar para a fé. Nem lugar para milagres.
Quando há fé, vinda um momento antes da serenidade, os peixes podem cantar. Mas para isso, precisamos parar. Deixar acontecer. Que no ano que se iniciará, possamos parar. Ter olhos de ver. Contemplar a real natureza das coisas, sem ansiedade. Desenvolver a serenidade necessária para que possamos ter fé.
Que o novo ano seja pleno de milagres!!!