SER AVÓ
14/08/2013 17:41
Contando histórias

Meu bebê ia fazer dois anos. Quer uma festa? O que quer de aniversário? “Boio” “Boia” e um “Paiaço”... no dia da festa, ela estava feliz. Os olhinhos brilhando com as colas coloridas, os doces, os brinquedos...Até que apareceu o palhaço.
Parecia filme de terror: se escondeu embaixo da mesa, chorava alto, para nosso desespero. Do nada havia surgido aquele ser fantasiado, todo desengonçado, de quem todos riam menos ela.
Lembrei de quando era pequena. Alguém me deu uma boneca gigantesca. Talvez a ideia fosse fazer uma boneca do tamanho da criança para que se passasse a ideia de uma amiguinha. Aliás, o nome da boneca era esse: Amiguinha. Logo demonstrei que não era de muitos amigos. Pelo menos não amigos de plástico. Fugi da boneca completamente apavorada.
A fantasia tem umas caras estranhas às vezes. Como ela é única para cada ser humano, nem sempre o que um adulto pensa quando reproduz um personagem da fantasia infantil dá o mesmo efeito que se pensou a início. Ver um brinquedo se transformar num ser maior do que ela, animado, pode ser assustador.
Isso às vezes produz coisas decepcionantes. Meu bebê cresceu um pouco e aprendeu na escola uma linda música para cantar para o Papai Noel quando ele fosse visitar a escola. Muito animada, ela cantava feliz a música preparada até que o Papai Noel entrou. Ficou mudo, vermelha e abriu um berreiro só. Até para receber o presente que ela via nas mãos dos coleguinhas foi um sofrimento. Ela queria o presente, desde que aquele ser assustador não se aproximasse dela...
Anos depois, já com seus oito anos de idade, na época do natal, entramos numa loja popular no centro da cidade. Um Papai Noel a viu e se aproximou sorridente, oferecendo doces. Quase morreu de susto. Ela, com a aproximação do Papai Noel e ele com o grito aterrorizado dela. Tive pena do sujeito. Era um Papai Noel muito magro, alto, realmente era uma figura um pouco estranha. E o pior: com a consciência da pouca representatividade que tinha, porque depois do grito apavorado da menina ele olhava pra si mesmo, pra própria roupa, procurando desesperado por algo que tivesse assustado a criança.
Essa menina cresceu, casou e teve um lindo bebê. E o bebê completamente apaixonado pela dupla de palhaços da moda. Canta as músicas, e curte toda a infinidade de brinquedos e todas as coisas que levam o selo dos palhaços (que fazem um produto simples custarem às vezes o dobro ou triplo do preço normal). Até que...
Os palhaços surgiram na frente da criança, que fugiu apavorada como a mãe dela, na infância. Genética? Como saber o que povoou a cabecinha do bebê? Fato é que entupimos as crianças de sonhos fantasiosos que custam pequenas fortunas, mobilizam o comércio, e pensamos fazê-las felizes tornando aquela fantasia em realidade. Mas o espírito puro que ainda está dentro delas mostra que tudo o que é bom e importante é realmente simples. Deus é simples. E a vida é simples e muito boa. Gente grande só faz complicar tudo. Porque já incorporou a fantasia nos seus corações e está muito longe da verdade.
Quando eu ouço esse velho ditado sempre fico imaginando tudo o que um curioso consegue fazer , com sutileza, para satisfazer sua curiosidade. Não raras vezes, são cenas engraçadas porque o curioso precisa sentir-se informado e controlando alguma situação, mas ao mesmo tempo deseja que ninguém perceba essa sua necessidade. Portanto, acaba agindo como um espião, entre o ganhar a informação mas de forma mais discreta possível.
O mesmo controle que ele deseja ter, imagina que outros também queiram exercer sobre ele, apontando seus defeitos, ou , no caso, sua curiosidade.
É interessante observar quem gosta de observar tudo e todos. Há o curioso indiscreto também. Aquele que chega escancarando a pergunta e nem se importa com uma resposta malcriada do tipo: “Cuide de sua vida”. Se não consegue a informação ele passa adiante aquilo que imaginou ser a verdade e estamos conversados.
Existe também o curioso cúmplice. Aquele que observa todas as atitudes de alguém, desconfiando que a pessoa guarda um segredo que só ele foi capaz de perceber. E Assim sente-se cúmplice e importante, ao descobrir o que o outro guarda a sete chaves. “Minha boca é um túmulo...”
Há o curioso jornalista, também. Aquele que sempre está atrás de alguma novidade com a qual possa discutir animadamente por algumas horas até o próximo acontecimento que vai tirar sua vida daquela rotina tão sem graça.
Mas terrível mesmo é o curioso justiceiro. Aquele que guarda a moral e os bons costumes e está sempre procurando saber de alguma falta moral de alguém, que ele possa descobrir e denunciar a todos, mostrando assim sua superioridade moral perante o outro.
Quase sempre o curioso precisa se sentir superior a alguém. Assim como o gramado do vizinho é mais verde, a vida dos outros parece mais interessante e movimentada. Já que anda pela própria existência com o freio de mão puxado, temeroso dos comentários maldosos sobre si, aquilo que fazem fora de algum padrão já é suficiente para dar mais cor à vida sem comprometê-la...
A mídia alimenta toda uma indústria que satifaz a curiosidade pública a respeito da vida dos mais famosos. Mesmo longe de nossa terra onde o importante é levar vantagem em tudo. O curioso vive dessa ilusão de se adiantar e levar vantagem sobre algo ou alguém.
Como a esposa curiosa que mexe na carteira , no celular, ou descobrem senha de redes sociais do marido, já adiantando a informação que poderia estar ocultando dela. Geralmente uma possível traição. É a curiosidade preventiva. Causa de muita encrenca e às vezes de vinganças cômicas. Afinal, quem procura sempre acha. Ou pensa que acha.
Citando outro ditado, “Pra quem sabe ler, um pingo é letra”. Portanto, se não existir uma informação concreta tudo lhe parece uma pista, seguindo uma estranha lógica que só faz sentido a ela, para justificar algo que imaginou ser verdade.
Soube de um sujeito que tinha sonhos recorrentes, onde a esposa o traía e seu amante o matava. Foram tantas as acusações que a mulher foi ficando cansada dele e realmente arranjou um amante. Quando finalmente ele conseguiu provas do adultério, tentou atirar no rival e foi desarmado e morto por ele. Inventou uma situação e acabou sendo vítima dela.
São inúmeras as histórias de curiosos cuja única glória é conseguir dizer ao final: “Eu já sabia!” A informação é uma coisa mais preciosa do que parece num primeiro momento. E pensando bem, nenhuma informação é completamente perfeita, somente um dos pontos de vista. Mas o desejo humano de ser aquele que sabe de tudo, aquele que não se engana e nem se deixa ser enganado, sobrevive forte e soberano em nossa convivência diária. Nem importa se a curiosidade matou o gato. Eles tem mais seis vidas para continuar sendo curiosos...
Eu tinha 3 meses de idade. Nasci pequena e doente. A mãe, sozinha e desamparada, comigo no colo numa metrópole, procurava emprego. Eu consegui fazê-la conseguir o emprego. E ganhei o maior presente da minha vida.
Ela bateu no portão daquela casa fina, num bairro elegante de S.Paulo. Na época, já começava esfriar e eu estava enrolada numa mantinha fina. A dona da casa atendeu. Sua filha, uma senhora de cerca de cinquenta anos também saiu para ver. Afastou a mantinha do meu rosto e disse:
- Eu sabia que vc estava chegando!
Para surpresa da mãe dela e da minha, me pegou no colo e entrou na casa. Aquela senhora pequenina, muito clara, com lindos alhos azuis me batizou. Na igreja de Santa Cecília, padroeira dos músicos, como ela. No batismo, eu ganhei uma medalhinha de Santa Cecília e a promessa:
- Vai aprender música como eu.
Minha dinda me criou com todo desvelo possível. Contava uma história pra mim antes de dormir, todos os dias. Como eram muitos dias, as histórias comuns acabaram e ela começou a inventar historias malucas, que eu adorava. Ainda bebê, eu lembro dela fazendo gracinhas diante do meu cercadinho. Me ensinando a falar. A andar.
Com três anos, eu , um dia, escalei a estante da biblioteca atrás de um livro grosso e vermelho. Despenquei de lá mas não soltei o livro. Minha mãezinha adotiva ponderou: acho que ela quer aprender a ler. Comprou um alfabeto de plástico e me ensinou a ler. Virei uma traça de biblioteca.
Naquela época, ela lecionava piano dentro da biblioteca, porque a casa era pequena. E como eu nunca me separava dela, fazia o cachorro da família de travesseiro e deitava em cima dele, embaixo do piano, ouvindo a repetição enfadonha das escalas. Terminadas as aulas, era minha vez de estudar. Música requer dedicação e repetição. Nunca está bom, sempre há o que melhorar. Com cinco anos toquei em público pela primeira vez. Com a Dinda do lado.
Todas as dores de barriga, todos os presentinhos de papel que eu trazia da escola, quando fui coroada rainha da pipoca, no colégio, o primeiro prêmio de piano, a primeira poesia publicada, tudo em minha vida, ela estava ali do meu lado. Quando tive caxumba, catapora e aquela crise horrível de apendicite. Ela saiu correndo para o hospital. Soube muito mais tarde que foi terrível para pagar a conta do hospital, tão caro. Quase vendeu o piano.
Eu entrava em pânico quando eu pensava em perder minha mãezinha. Uma viagem dela era o suficiente para eu ficar aterrorizava. Então ela me levava pra todo canto. Dizia: Você nunca vai ficar sem mim, não se preocupe. Mas eu achava que não. Quem foi rejeitado um dia acha que sempre vai ser novamente.
Minha mãe biológica casou-se e me levou embora. Adoeci. Minha dinda ficava guiando a esmo pelas ruas do bairro onde ela sabia que eu morava, na esperança de me encontrar. Mas como dizia minha mãe biológica: fui muito mal criada. Tinha amor, carinho, atenção, respeito, e nem me dava conta que eu era uma bugrinha meio torta sendo criada por uma senhora loira e linda. Eu dizia: Filho de peixe é peixinho. Sou igualzinha à minha mãe...Ela nunca se importou se eu era mais escura, se tinha as pernas tortas, os olhos rasgadinhos, se era feia ou bonita: eu era seu bebê.
Mesmo quando, adolescente, me transformei naquele ser insuportavelmente arrogante. Ela me comprou um par de calças laranja, como eu queria. Quando meu filho ia nascer, tocaram a campainha. Pela porta, carregadores traziam um berço enorme, várias coisas de bebê: cadeiras, Moisés, banheira, carrinho...E dentro do berço um enxoval suficiente para agasalhar quíntuplos. Todas as peças carinhosamente tricotadas pela Dinda.
Ela também estava lá quando minha filha caçula nasceu. Segurando minha mão na sala de cirurgia. Dividindo seu tempo entre me visitar e cuidar do menino mais velho em sua casa. Depois fomos todos para a casa dela.
Lembro-me como eu sentia conforto em deitar na sua cama, com o cheirinho dela. Sempre que estava muito triste era pra lá que eu corria.pro colinho da minha mãezinha querida, pro chazinho que ela fazia. Levantava cedo para fazer Ioga com ela. Ia para o piano e deixava minhas mágoas todas lá. Criança, e até um pouco mais velha, era de um mutismo desesperador. Não conseguia exprimir sentimentos. Só assim: Tocando. Ela compartilhava isso. Às vezes me puxava pela mão e me levava até o piano. Daquelas mãozinhas preciosas saíam sons coloridos e doces. Era mais uma música. Que ela fez pra mim.
Mesmo nos piores momentos, naqueles em que qualquer um desistiria de uma filha adotiva e difícil, ela estava ali:
- Eu te amo!
Gostava tanto de andar junto dela, nas coxias dos teatros, nas livrarias onde passávamos tardes inteiras, nas visitas aos seus amigos, todos meio malucos como ela: eram pintores, bailarinos, atores, músicos. Não se envergonhavam em deixar a criação fluir onde quer que estivessem. Um dia a peguei cantarolando e regendo uma nova música em plena Av. Cardeal Arco Verde...Artistas são médiuns de Deus. Não tem hora ou lugar. A inspiração vem e pronto. Simples assim.
Meus filhos tinham adoração pela “vódrinha”. E eu morria de ciúmes. Para que eles ficassem à vontade, todos os bibelôs da sala subiam as prateleiras e eles podiam fazer tudo o que quisessem. Estragava as crianças como faz uma boa avó.
Nunca me senti um peixe fora d’água naquela casa. Minha dinda, tia e nona foram a família que Deus me agraciou. De quem assimilei os hábitos. De quem guardo as mais lindas recordações. Filho de peixe é peixinho. Tudo o que aprendi a gostar ela me ensinou. Não fiz carreira musical como a dela, mas a música nunca mais saiu de dentro de mim. Nem as que ela fez para mim.
Um dia ela me disse ao telefone: Trabalhei o dia todo e dei uma corridinha à livraria. Parei o carro longe e peguei chuva. Acho que apanhei uma gripe. Mas logo estarei bem. No dia seguinte, um infarto fulminante a levou para perto de Deus. Foi ligeira, ativa e feliz até seu último dia de vida. Meus medos se tornaram reais. Levei um tempo imenso para me recompor e assimilar essa separação.
Mas perto do dia das mães, queria que ela soubesse, que continuo dizendo que filho de peixe é peixinho mesmo que não se pareça com ele. Um filho adotivo teve uma coisa a mais que o natural: foi o coração quem escolheu e esse nunca erra. Ele não “aconteceu”. Teve a aceitação de pronto, muito mais que muitos filhos naturais. E esse é o meu carinho para todas as mães que geraram seu filho dentro do peito. No coração.

Quando me casei, levei dois homens para casa. O marido e seu irmão caçula, de quem ele cuidou desde pequeno, depois da separação dos pais. Não tínhamos muita diferença de idade, eu e meu cunhado, mas também o tratava como meu irmão mais novo.
Ele tinha adoração pelo irmão, que lhes fez as vezes de pai. Porém, pela dependência química instalada na nossa família, meu jovem irmãozinho desenvolvia as características comuns aos filhos de alcoólicos. Ele era o filho herói, aquele garoto bonzinho e obediente, que fazia o possível para manter a estabilidade emocional em casa, punha panos quentes em tudo, era um garoto doce e cordato. Responsabilizou-se cedo pelas obrigações do irmão, talvez não lhe fosse possível suportar outra separação como foi a dos pais, então fazia todo o possível para unir e manter a paz entre nós.
Infelizmente, passou a beber também. Casou-se muito cedo e esforçava-se para demonstrar na própria família que formava, uma paz e união que não sentia na de origem.
Tenho a plena convicção de que o álcool não dá elementos à personalidade de ninguém. Mas como tem a propriedade de cortar a censura natural interna de cada um, os defeitos de caráter de cada pessoa ficam um pouco mais exarcebados, porém não se adquire algo que internamente não exista naquela personalidade. Como o alcoolismo é uma doença da negação, a própria necessidade do cérebro do alcoólico de ingerir quantidades cada vez maiores de álcool, o faz, pela negação, distorcer seu caráter ou utilizar características suas com a finalidade de não sofrer punições e reprimendas, e assim obter a condencendência das pessoas que convivem com ele.
Essa atitude de negação pode ser uma carranca, aquela que faz a pessoa assustar a família, a brigar, para que, pelo medo, ninguém conteste seu estado etílico, pode passar pela ironia e humor, se esta for a personalidade dele, conquistando assim a simpatia de todos. A ideia básica é safar-se da apreciação dos outros sobre seu descontrole sobre o álcool.
Alcoólatras em geral são pessoas extremamente carismáticas e muitos mantém a simpatia e facilidade de agradar as pessoas, fazendo todo o possível para não entrar em choque com os outros. Obedecem, fazem o que podem para serem bem enquadrados e assim, obterem a “compreensão” dos outros: “Ah, ele é tão legal, só tomou uma cervejinha, ele merece...”
Nem sempre essa atitude de negação permanece. Com o desenvolvimento da doença, a raiva e o mal estar que a pessoa sente em relação a si e aos outros a faz ter atitudes anti-sociais e desta feita, deixa de ter a solidariedade dos outros que passam a lhe cobrar uma mudança de comportamento e um controle maior sobre o ato de beber.
Esses bebedores pesados é que acabam sendo empurrados para um programa de recuperação. No livro “Alcoólicos Anônimos”, consta que “...pela falta de controle,ele faz coisas absurdas, incríveis e trágicas quando bebe.”e “Seu temperamento, quando bebe, lembra muito pouco sua verdadeira natureza.”
Porém, nem sempre isso acontece, dada a diversidade de temperamentos que existem. E aquele que consegue manter uma certa harmonia dentro de seu círculo de relações, exercendo carisma e simpatia sobre todos, podem morrer prematuramente, tal como a história do sapo que foi mergulhado em água fria e depois que a água começa a esquentar até ferver, não percebe que está se encaminhando para a morte.
Mudança de atitude e a procura de um novo modo de vida, passa necessáriamente por se considerar fortemente um valor de vida para a pessoa. Alcoólicos, e dependentes químicos, são criaturas extremamente conservadoras, apesar disso parecer paradoxal. Valores incutidos na pessoa, pod filme “Ray”, onde se conta a biografia do cantor Ray Charles, a questão de valor que o fez repensar suas compulsões estava em sua música. Valores como família, filhos, amigos, não foram suficientemente fortes para promover a mudança que fez em sua vida, somente a música. Muitos se rendem quando perdem suas famílias, nisso reside seu conceito máximo de valor. Outros quando empobrecem ou perdem seu trabalho. Ou a saúde. O valor de maior importância na vida de alguém é o móvel que pode faze-lo sair por um momento ainda que breve do estado de negação.
É comum vermos em programas de recuperação, pessoas que perderam o que lhe havia sido mais caro na vida.Ou pessoas contestadoras o suficiente para sentirem-se “peixes fora d’água” numa sociedade que enaltece a obediência e o enquadramento de todos a padrões estabelecidos. Uma hora ela deixa de ter vontade de dar murros em ponta de faca e rende-se ao fato de ter uma doença.
Acontece que esta mesma sociedade pouco se importa com o bem estar físico ou mental de cada um que a forma. Desde que esteja devidamente enquadrado, ela acata e é condescendente com o mal que, se afirma, atinge unicamente a própria pessoa. Se a atitude de negação do bebedor se enquadrar numa situação confortável, nesse sentido, O Cervejão vira cervejinha, lazer e status. Às vezes até se idolatra artistas e celebridades reconhecidamente dependentes de álcool, desde que se enquadre naquela personalidade do “sangue bom” Portanto, os que mantem em seu valor máximo a família, e esta for suficientemente atendida por seu bebedor-problema, essa pessoa vai morrer prematuramente sem sair de sua negação. Pois a negação está também em sua parentela.
Lembro-me do caso de um cidadão que no velório de um amigo, morto em decorrência do álcool, perguntou à viúva: “Porque não o levaram aos Alco[olicos Anônimos?” E recebeu como resposta: “Ele tomava a cervejinha dele, mas também não era para tanto!” Assim, os “bons”, morrem jovens. Apenas os bravos, desajustados, contestadores e brigões são empurrados a tomarem consciência de sua doença. Caso sua negação seja uma bem sucedida manipulação das pessoas ao seu redor, somente um profundo amor familiar e preocupação sincera com a saúde desta pessoa pode trazer um final diferente. Na verdade, a família abraça a tolerância da sociedade em relação ao álcool, por absoluta falta de conhecimento em relação à doença do alcoolismo.
Os bons morrem jovens pela condescendência social às drogas lícitas. Por desinformação geral. E só nos resta chorar a dor da saudade de alguém que foi realmente especial em nossas vidas. Hoje, li nas despedidas de uma de suas filhas: Sempre será lembrado, meu pai, alegre, sempre com sua cervejinha ao lado... Sim, meu irmãozinho mais jovem sempre será lembrado porque era bom. Mas não por ser mais uma vítima do alcoolismo. Infelizmente.
Isso aconteceu lá no início do século 20. Numa cidadezinha perdida no centro do Brasil. Uma garota se apaixonou. O problema é que o alvo de sua paixão era casado e cheio de filhos.
Naquela época, apenas a paixão já deixaria a moça numa situação muito difícil. O problema a seguir é que ela não mediu consequências. Paixão tem disso: deixa aquele que dela padece com um parafuso a menos e coragem demais. Como os bêbados, só que se embriagam de uma ideia.
E a tal moça foi adiante em sua paixão. O tal homem casado, também impossibilitado de estar sempre com sua amada, passou então a maltratar e humilhar a esposa, que em franca depressão, adoeceu gravemente. Não sem antes rogar uma bela e boa praga na amante do marido: Ela até poderia se casar com ele após a sua morte, mas nem ela nem nenhuma outra moça de sua família, até a quarta geração seria feliz no casamento.
Assim contam a história da praga da moribunda sobre uma tia minha. Se praga é coisa certa ou não, fato é que de tanto ouvir essas histórias, a família chegou à conclusão que pegou mesmo. Tornou-se a família do dedo podre.
Ali, para o príncipe se tornar um cururu de primeira linha era fácil. Todos os maridos tinham senões e no final, todas as mulheres acabavam também amaldiçoando a tia regateira... Cheguei a conhecê-la, já velhinha e senil. Achava muito divertido conversar com ela. Era ligeira, de olhos vivos e felizes. Às vezes pregávamos peças na velha tia, coisa de menino levado, e sempre alguém desenterrava a tal história da praga, como se ela merecesse castigo.
Interessante como sempre achamos culpados por nossas histórias infelizes. Nos tempos antigos, tudo se resumia a pragas e maldições. Histórias em que a justiça divina se fez porque alguém se queixou com Deus. A responsabilidade pela própria vida era coisa que nem se aventava, de forma nenhuma.
Além dessa história da tia, minha família coleciona uma infinidade de histórias e lendas sobre maldições e pragas rogadas. Quando menina, eu ficava ouvindo essas histórias, contadas ao pé do fogão de lenha, com os olhos estatelados e com medo de tudo o que poderia vir na vida depois. Os antepassados aprontavam as deles e eu tinha que pagar o pato?
Hoje penso nesse tipo de cultura. E a diferença com a cultura de povos que cultuam seus antepassados.Que se curvam ao desbravamento que seus antepassados fizeram para que as vidas deles fossem melhores. E não no que fizeram de errado, como uma conta antiga que nunca consegue ser paga e passa de geração em geração. Lembra muito a história do país como um todo. Essa é a cultura que temos. O bom é sempre o jovem, o último. O que passou deixou apenas fardos como herança, difíceis de carregar.
Às vezes acho graça nessas histórias. Muitas vezes, fico espantada ao ver acontecer coisas aparentemente inexplicáveis. Como aquela história, também ocorrida no mesmo lugar, sobre o homem pão duro. Dizia-se que os sovinas não são cobertos pela terra. E um homem rico e sovina, desprezava essa máxima. Pensava: como a terra não cobrirá se for construído um bom túmulo. O sujeito morreu. Com direito às exéquias de costume, construído o tal túmulo, não é que houve um problema qualquer naquela construção e o túmulo se abriu? E o caixão ficou exposto, para o terror dos moradores da cidade que mal podiam passar perto do cemitério, como uma cena do “Incidente em Antares” do Veríssimo...
A força com que pensamos e naquilo que acreditamos, forma uma egrégora tão forte, capaz de produzir essas coisas absurdas. Como um dia, quando eu vi frente a frente a mãe do mato. Uma bola de fogo que passava entre as árvores, sem queimá-las. Chamam isso de fogo fátuo. Na verdade, na minha mente infantil, aquilo era uma aventura indiscritível.
Na minha cabecinha povoada por sacis, mulas sem cabeça ( que eram mulheres que se casavam com padres ) lobisomem e outros tantos personagens loucos e misteriosos do nosso lendário, era como viver num filme. Num mundo povoado por silfos, elfos e ondinas, Aliás, mundo bem mais interessante...
Mas já que tudo o que pensamos tende a se materializar, todas essas crenças, de alguma forma também criam forma. A forma que lhes damos. Que a razionalização até explicaria, mas perderia completamente a graça. Porque a graça da vida é ter surpresas como uma criança que todos os dias descobre algo novo. E viver nesse mundo encantado é bem mais agradável, apesar do medo que acompanha sempre essas histórias, que nossa realidade batida, violenta e cruel. Comprovadamente dura. Antes um lobisomem que um assaltante menor, armado e drogado. Perdeu-se a poesia dos contos antigos. Perdeu-se a inocência e a graça que andava junto com ela.
Eu era criança ainda, quando perguntei a um professor porquê todos os presidentes do país eram militares. Numa aula aberta, com várias classes. E não entendi por que ele desconversou e a auxiliar de direção o olhou daquele jeito. Eram os tais anos de chumbo.
Lá em casa se dizia que política não era coisa que se comentasse. Que o filho não sei de quem se meteu em política e sumiu. Pra mim, política era algo que fazia as pessoas sumirem. E quando eu ficava com muita raiva e queria desaparecer do mapa, pensava: vou falar dessa tal de política...
O professor que ficou embaraçado com minha pergunta, mais tarde me chamou em particular. Olhou pra mim muito sério e disse: você gosta de ler. Eu tenho um livro mas nego se você disser que eu lhe dei. Será que ali tinha política? E a mágica de fazer sumir? Me deu “O Capital” de Karl Marx. E eu fiquei encantada com o livro. Mas aprendi que dúvidas se tiram em particular. Era como falar de sexo. Em público, não podia.
Mais tarde, um pouco mais familiarizada com as ideias sobre socialismo, meu professor também sumiu. Não sem antes me explicar muitas coisas. Uma, das quais, onde encontrar publicações que denominavam de “imprensa marrom”. Aquilo tudo dava um ar de mistério, Comprar aqueles jornalecos era uma verdadeira aventura. Já saída do 2º grau, me encaminhava para a faculdade e por perto haviam bancas de jornais onde eu podia encontrar as publicações. Era perto do trabalho, também. Meio como uma sociedade secreta, nos aventurávamos a nos reunir para discutir ideias sobre um novo partido político. Na época foi a primeira vez que tive a honra de me confrontar com a polícia.
Reunidos num teatro, um líder sindical iria falar. Era encantador. Líderes populares têm a capacidade de brilhar. Reluzem aos nossos olhos. Ele falava mal e errado, mas eu desconfiava já ter ouvido ou lido aquelas palavras. Mais tarde me lembrei que eram trechos de “A Ilha” do nosso amigo cubano.
Mas foi bem mais tarde que consegui me lembrar porque a polícia interrompeu a palestra e eu acabei misturada em meio às pessoas que tentavam se defender da borracha...Nossa! Eu era adulta, levei borrachada pelo meu país! Na ocasião, tamanho idealismo faria com que muitos de nós desse mesmo a vida, com prazer, em prol de uma liberdade que mal sabíamos como era, uma vez que ao nascer, o regime militar já vigorava. No colégio, fazíamos fila para visitar quartéis e voltávamos felizes, com uma latinha de ervilha nas mãos, achando que o exército era a 8ª maravilha do mundo.
Portanto, o idealismo se resumia sobretudo ao desejo de modificar coisas estabelecidas. Muito mais que qualquer ideologia política. Chegamos ao mundo. Crescemos e este mundo não serve para nós. Vamos moldá-lo à nossa maneira! Mas ainda assim, tínhamos a exuberância de quem afronta. O jovem afronta apenas para delimitar seu espaço, muito mais que por qualquer ideia que tenha ou que implantem nele. A controvérsia faz parte do crescimento.
Fiquei felicíssima, quando, como uma heroína, iam me buscar, pois estava detida para averiguações, cheia de hematomas e um dente quebrado. Eu fazia parte da história.
Pouco tempo depois, o apoio ao líder que havia sido detido no antigo DOPS. E a colheita paciente de infinits assinaturas para poder fundar o partido que mais parecia uma colcha de retalhos, com lideranças de todos os tipos que às vezes mal se bicavam. Mas era um sonho de mudança. Por anos, militei no partido. Por anos eu mantive o idealismo juvenil. Até que fui me desencantando gradualmente com pequenas e grandes coisas que eu via. Já não precisava mais de ser controversa para me auto afirmar. Nem o partido. Finalmente o líder assumiu o posto com que esperamos por tanto tempo. Parecia uma espécie de recompensa pelo trabalho.Mas, na maturidade, já não havia mais a ilusão de tanta transformação assim. Não como a planejada por tanto tempo. A cultura do país sempre vai ser muito mais forte que qualquer ideologia. E, convenhamos, fizeram um bom trabalho quando derrotaram a educação, e criaram tantas cabecinhas não pensantes, todas com latinhas de ervilha nas mãos como no tempo do colégio...
Mas esse é o povo do qual saí e que tanto amo. E Deus está sempre na voz da maioria. Apenas porque Ele não tem ideologia nenhuma. Hoje, podemos falar abertamente ( ou quase ) sobre tudo. E como matronas, falamos, reclamamos, chiamos e não passa muito disso. Desabafo feito, voltamos felizes aos nossos afazeres, às compras, ao nosso mundinho um pouco melhorado.
Até aparecer uma aberração para apontar nossa permissividade. Cultura de corrupção, de desmandos, de sonegações e o levar vantagem em tudo já é carne de vaca. Reclama-se e continua como tal. Como mulher que apanha do marido. Pensa ter um ar de dignidade ao suportar maus tratos e “não ser como ele”. Só quando aparece um homófobo, racista, para cuidar dos assuntos das minorias que nos perguntamos: “Como ele conseguiu parar lá?” Aí cai a ficha de quantas coisas engolimos, de tantas coisas que nos permitimos, como um bêbado que foi se anelando aos poucos à bebida até perceber que se tornou refém dela. Quando percebe, pois como sapos cozidos a partir da água fria, muitos morrem sem perceber isso. Como agora, percebemos que a vergonha na cara faleceu há tempos.
Essa sim seria a verdadeira ideologia.Não num sistema político. Mas num sistema de respeito humano, de convívio pacífico e solidário. O que significa ser solidário? Porque já se acostumou a considerar o inerte, pacífico. O que não toma medidas. O que deixa como está para ver como fica. Apenas reclama, como quem reclama do tempo, da chuva, do calor e do preço do tomate. Se as pessoas não se considerassem tão solidárias, conseguiriam ser, de fato. Brasileiro é povo solidário. Não pode ver uma catástrofe que já manda a roupa velha do guarda-roupa pra lá. Mas não cumprimenta o vizinho. Não se preocupa com o lixo. Atropela ciclista. Ainda levamos vantagem em tudo. Quando a revolução da solidariedade real começar a existir, deixa de fazer sentido um ladrão tomar conta do cofre, um bebum tomar conta da adega, e um preconceituoso cuidar dos direitos humanos de todo um povo.
Ato falho é coisa que nos expõe ao mais absoluto ridículo. Como se a alma de uma hora para outra fosse se rebelar e entrasse em greve, nos deixando na mão bem quando gostaríamos de fazer bonito.
Eu tinha uma amiga que sofria violência doméstica. O marido era um algoz, sempre batendo, humilhando, e a cada agressão ela vinha chorosa e jurava: “Dessa vez eu me separo do Anselmo!” Dali há poucos dias ela mudava de ideia.:”Ah, as crianças sentiram falta do pai...” Isso era constante. E nem cabe aqui ficar cogitando o porque ela não mandava aquele Anselmo às favas de uma vez. Até que um dia...
- Bah, estou desesperada. O Anselmo foi tomar um ônibus. Caiu, bateu a cabeça e está na U.T.I.
Fui pra lá na hora. Aliás na hora certa porque ele tinha acabado de falecer e minha amiga foi levada para casa, desolada. Já que era assim, resolvi voltar para o velório.
Esse velório ficou marcado pelo meu ato falho. Na ânsia de abraçar e consolar minha amiga, eu lhe dei um longo e carinhoso abraço! Ela chorava muito. E eu, sem pensar em nada, abri a boca e saiu:
-Parabéns, amiga! Muitas felicidades!!!
Nem eu mesma estava acreditando que tinha dito aquilo...Pensei em como consertar. Que nada, conserto ali só iria piorar as coisas. Sem graça, saí de fininho...Maldito ato falho que acabou nisso.
Só não foi pior que o ocorrido com outra amiga. Foi visitar uma parente que tinha dado à luz.
- Bah, o bebê era medonho. Nunca tinha visto uma criança tão feia. Lembrei que poderia até representar o bebê de Rosemary.
- Que horror! Não existe criança feia!
- Aquela era feia. Muito feia. Tudo o que consegui dizer foi: Ah, mas é saudável, não é? Isso é o que importa...
Os sincericídios que os atos falhos provocam, destruindo por completo as relações de quem abre a boca e deixa o espírito falar...
Minha avó de criação tinha uma cunhada senil. Quando essa família me adotou, minha “mãe” já passava da meia idade. Cresci emtre pessoas muito idosas. Era comum ouvir: “Você viu, menina? A Amelinha está com arterioesclerose...” Eu achava que arterioesclerose deveria ser uma coisa muito mais feia que o bicho papão. E achava divertido visitar a cunhada da vovó. Ela no mínimo era mais animada e o papo era parecido com o do Chapeleiro Maluco, da Alice no País das Maravilhas.
Aliás aquela casa toda me parecia o cenário da Alice, sempre encontrando coisas, para mim incompreensíveis, mas divertidas ao meu olhar de criança.Não entendia bem porque a cuidadora dela estava sempre tão irritada. Ela era engraçada... Não entendia também a graça dos “tios”, filhos daquela senhora, ficarem parados em frente ao tabuleiro de xadrez, com as pernas balançando nervosamente, com as mãos no rosto, e levando uma eternidade para mudar as peças de lugar. Apenas se ouvia o tic-tac do relógio cuco na parede. E eu ficava torcendo para o cuco sair na portinha e provocar neles alguma reação.
Com o passar do tempo, eu vi minha avozinha também ficar acamada por longo tempo. E, mais velha, já tinha aprendido que quando um velhinho começava a “ver” e lembrar dos entes queridos que já estavam falecidos, estavam também próximos da morte. Como se todos estivessem ali prontos para buscá-lo. Não gostava que ouvi-la falar deles. Mas continuava achando graça nas fantasias de quem estava perdendo o limiar entre a realidade e o sonho.
A loucura dá uma sensação de liberdade estranha. Seja ela por qual motivo tenha se instalado, se por enfermidade, senilidade, por qualquer coisa. É como se a alma tivesse a permissão de viver com a Alice no País das Maravilhas...
Houve uma época em que eu trabalhei num grande manicômio. Uma das pacientes era uma senhora que foi abandonada pela família e vivia lá desde antes de eu nascer. Sempre sorridente e serena. Gostava de cuidar dela, enquanto ela me contava sobre os bailes em que havia dançado com reis que viveram há mais de dois séculos. A riqueza de detalhes com que ela contava suas aventuras, obviamente impossíveis de terem sido vividas, pela data. Mas como um sonho, ou quem sabe, por aquela alma ter se recordado de algo que varava a noite dos tempos (para quem acredita nisso), fato é que era lindo ouvi-la falar.
Há pouco tempo, vi uma pessoa também abandonada pelos seus, definhar até ser necessário recolherem a um asilo. Já misturava fases de lucidez e de demência. E na demência mostrava o que lhe vinha na alma, carregada de medos e suspeitas. Sempre alguém tinha lhe roubado ou ferido. Aquele velhinho me fazia pensar como o céu e o inferno são impressos como a ferro em brasa no espírito. Transparecem quando a alma é libertada, seja pela loucura ou pela dor. Aquele que tem o céu impresso nas digitais do espírito, estão sempre plácidos e sorridentes, donos de uma serenidade que nos faz perguntar como conseguiram aquilo. Mas quem cultivou o medo, a dúvida, o rancor, este é assombrado pelos seus demônios internos. Desconfia de tudo, todos podem lhe fazer mal.
E há os que voltam à infância. Se já foi dito que às crianças pertence o Reino de Deus, podemos até imaginar que se fizeram crianças para voltar felizes ao Pai.A este grupo pertencia a cunhada de minha avó. Brincava e brigava comigo por causa de minhas bonecas. Não havia amiguinha mais divertida que ela.
Seja como for, nos enternecemos tanto ao vermos uma criança, toda linda e cheia de dobrinhas, sorridente...Um anjo puro e inocente, pensamos. E os anjinhos senis, não nos causa a mesma ternura. Por que será? Medo de nos espelharmos e percebermos a nossa fragilidade? Medo do preconceito e do abandono?
Uma coisa que me irrita, com certeza, é uma afirmação muito comum:”Ah, se ele foi abandonado tão velhinho e desprotegido, alguma coisa fez para chegar à essa situação...””Deve ter sido alguém muito duro, muito ruim...”Conheço várias pessoas ruins que não foram abandonadas. Simplesmente porque quem estava à sua volta não era ruim. Abandono nesses casos, pra mim, não mostra o caráter de quem ficou abandonado, mas de quem o abandonou.
Sempre tenho a sensação que são os nossos medos que conseguem trazer à tona aquilo que de pior temos dentro de nós. Eles são nossos verdadeiros demônios. No sentido primeiro da palavra: diabo – divisão. Nos partem ao meio e nos fragilizam. Um vidro quebrado, corta. E quem fica no limiar da demência nem sempre sente mais medo. Ou o medo é tamanho que a fuga para outra realidade nem tem mais volta.
Certo é que a divisão nos torna indefesos. E aos indefesos só resta a poesia da imaginação libertada. Loucos são livres. E nós visitamos e flertamos com a loucura (nossa e a dos outros) por toda a nossa vida.
Estavam num boteco da Avenida Ipiranga, entre a Avenida São João e a Praça da República, três colegas, professores de inglês.
Estavam lá, conversando, relaxando após um dia de trabalho. Relaxavam, rindo e tomando cachaça. Cachaça Velho Barreiro com limão, e cerveja para quebrar o gelo.
O mais velho, contava com 50 anos de idade mais ou menos. O segundo, 30 e o terceiro ia completar 21 dali 3 meses. Era o mês de abril de 1982.
Iam sempre para a mesma estação do metrô, a República. O mais velho fazia baldeação na Sé e seguia para os extremos da zona leste. O segundo e o terceiro iam para a zona norte. Santana e Carandiru respectivamente.
Às vezes, o segundo descia no Carandiru e não passava os bloqueios, pra ficar conversando com o terceiro, fazendo piadas, trocadilhos, em inglês e português, coisas como: “caminhão” = “big way” ao invés de “truck” ou “portão” = “by so” ao invés de “gate” e falando sobre todo tipo de assuntos: de meditação zen até dicas de sedução e tals.
Foi nessa época que o terceiro descobriu que seu ascendente era peixes. Existiam tabelas em livros e até em certas revistas. A internet já existia, (e na época não se sabia, só para os militares americanos e alguns grupos fechados e secretos), e é claro, bem mais lenta.
Mas, voltando ao bar da Avenida Ipiranga e os três colegas professores.
Seus nomes, do mais velho para o mais novo: Krigor, Isaac e Jurandir.
Ficavam confabulando em inglês, para a curiosidade dos que estavam no balcão. Não eram muitos.
Os mais velhos, um descendente de russos, o outro judeu, e o mais novo filho de pais indígenas eram um exemplo de diversidade.
Este Krigor era bem magro, esguio, usava sempre uns óculos escuros, tinha passado por um derrame cerebral que lhe afetou as mãos a ponto de ter dificuldades com o giz, e as pernas à ponto de se arrastar um pouco para poder andar. Era uma pessoa admirável por nunca se lamentar de sua condição e um excelente professor.
Isaac era o mais baixo dos três, pele clara e ligeiramente gordinho, em grande parte por conta das cachaças que bebia já a uns 10 anos.
Nunca lhe afetou a memória, a vida nem nada. Pelo menos até aquela altura do “campeonato” . Tinha a imaginação fértil, muito mais fértil do que a de seu colega filho de indígenas. Era generoso. Deu a Jurandir uma bíblia grego-inglês.
Jurandir, moreno um pouco obeso, o mais novo dos três era um bom professor também. Em sua primeira aula, (já havia falado com o coordenador), ao invés de começar com a gramática, começou com música. Era “Ebony and Ivory” cantada por Paul McCartney e Stevie Wonder.
Fez com que seus alunos entendessem a letra e as pronúncias pra só depois trazer um gravador(?) e tocar a fita(?) ...
Jurandir, é claro, gostava de beber. Foi à casa de uma aluna um dia, para ouvir discos. Num determinado ponto da audição ele sai para comprar cigarros e já se embebeda ali mesmo a ponto da aluna “pedir” gentilmente para que ele saísse.
Mais tarde ele diria aos seus colegas que conseguiu “estragar tudo” por conta da sua cachaça!
Voltando ao bar da Avenida Ipiranga. Estavam lá os três, conversando em inglês, bebendo pinga e cerveja quando Jurandir, sem saber que ia ser mal interpretado referiu-se a Krigor como “Mr. So-So” –
Jurandir foi surpreendido pela reação de Krigor que lhe esvazia na cara um copo de duzentos mililitros de cerveja.
Jurandir por sua vez, apenas levou um susto, mas não sentiu raiva.
Quando Isaac percebeu que não ia haver briga ou coisa parecida exclamou para Jurandir, em português:
Jura: “Você é o cara mais gente fina que eu conheço.”
Chamou Krigor de lado e disse: foi um “misunderstood”. Krigor veio a Jurandir e pediu desculpas, e Jurandir também pediu desculpas.
Isaac falou: “gente, até meia-noite tem metrô”, “vamos tomar uma saideira!!!”
E tomaram a saideira e quase perdem o último metrô !!!
Isso foi em abril de 1982, na Avenida Ipiranga em São Paulo - SP
Coração de leão
Ele era um menino estranho. Agitado, gostava de falar consigo mesmo. Parecia que mal ouvia quando os outros vinham falar com ele. Andava depressa, às vezes dava um soco no ar, resmungava alguma coisa e continuava a andar. Sozinho. Sempre sozinho.
Na escola tirava notas razoáveis. Não gostava de falar nem de perguntar nada. Não tinha muitos amigos. As vezes, em casa, ficava horas dedilhando o violão, com um ar distante.
Um dia decidiu que não iria à escola. Alguma coisa o chateava. Queria andar, andar até parar de pensar. Seus pensamentos, confusos, o incomodavam. Subiu até a fábrica velha e abandonada. Diziam que havia morrido um grupo de operários naquela fábrica, num acidente. E que mesmo depois do prédio abandonado se ouviam vozes e gemidos naquele lugar. Mas ele não tinha medo.
Atrás do prédio onde ainda estava pendurado uma placa informando que ali era o almoxarifado da antiga fábrica, ele viu que um homem idoso estava sentado sobre um tronco de árvore caído ali. Tinha alguma coisa nas mãos. O garoto resolveu voltar dali mesmo. Temia ser visto.
Foi quando ouviu uma melodia fininha, saída de uma flautinha que o velho tinha nas mãos. Resolveu andar mais depressa mas algo naquela música o fazia ficar meio preso ao chão. Afastou-se um pouco e escondeu-se atrás de uma mureta. Aquela musica mexia com ele.
A música parou repentinamente e ele ouviu a voz grave do velho dizendo: “- É você, Raimundo?” O menino pensou: “Agora eu não posso me mexer ou ele vai me ver. Daqui a pouco vai aparecer esse Raimundo, eu vou embora”
O velho levantou-se devagar, deu uns passos e perguntou novamente:”È você, Raimundo?” O menino começou a ficar nervoso. Sentiu, então, a mão do homem pousada em seu ombro. Estremeceu e ia dar um salto quando sentiu aquela mão segurar seu braço. O velho disse:”Porque está com medo, Raimundo? Você não estava me ouvindo tocar? Venha, sente-se aqui.”
O garoto tremia de medo. O homem era muito grande, forte, tinha uma grande barba branca e ralos cabelos longos e brancos. Seus olhos pareciam vazados. Por um momento achou que era um dos fantasmas da fábrica. Mas achou a mão do homem muito pesada para ser um fantasma. Devia ser um andarilho qualquer. Tentou dar um safanão e correr, mas o homem o segurou com força.
O homem continuou: “Sente-se aqui, Raimundo.” O menino conseguiu finalmente dizer: “Eu não me chamo Raimundo”. Ao que o homem retorquiu: “Chamava-se.Quando trabalhou aqui. Você tocava muito bem essa flauta. Eu não consigo tocá-la tão bem”O menino pensou: “Deve ser mesmo um andarilho louco!”
O homem o fez sentar e pôs em suas mãos aquela flauta. Disse para tocá-la. O menino, assustado, pensou o que deveria fazer. Ele nunca havia pego uma flauta nas mãos antes. Levou o bocal aos lábios. Algo o fez tapar alguns daqueles orifícios com os dedos. Ele não sabia como, mas sabia tocar. A melodia fininha, saía bem compassada. Aos poucos, o menino, entre surpreso e satisfeito foi movendo os dedinhos e aprofundando a execução da música. O velho o observava satisfeito.
Parecia ao menino que sempre havia feito aquilo. Uma paz profunda tomou conta dele. Toda aquela agitação que sentia desapareceu. Esqueceu da presença do velho, da escola, de tudo o mais. Foi quando ele viu se aproximar uma moça muito bonita. Ela estendia suas mãos para ele. Parecia que seu semblante brilhava. Ele olhou para o velho e novamente para a moça. Uma de suas mãos segurava a flauta. A outra ele estendeu para a moça. Foram-se afastando do velho até ficarem totalmente envoltos na luz.
O velho, emocionado, baixou seus olhos e proferiu uma pequena oração de agradecimento. Finalmente conseguiu o que durante tantos anos ele pediu ao Criador que o ajudasse a fazer: Seu filho Raimundo, ainda muito jovem, trabalhou naquela fábrica. Antes do primeiro mês de trabalho houve aquele grande acidente e ele pereceu junto com vários colegas. Era um rapaz muito tímido e reservado e sua única alegria era a flauta que o pai lhe dera ainda na infância.
Por muito tempo o pai preservou aquela flauta como lembrança dele. Até que soube da história das vozes na fábrica desativada. Não queria saber de seu filho sofrendo até que lhe ocorreu devolver-lhe sua flauta. Pediu ajuda ao Sr. Damião, que cuidava dessas coisas de mortos, benzia crianças e alimentava os pobres do lugar; e seguiu a orientação do bom amigo.
A história do Raimundo foi Guima, seu pai, que me contou, um pouco antes de morrer e ir juntar-se ao seu filho querido. Qual a verdade nela, eu não sei. Mas é uma bela história. Resolvi contar aqui. Namastê!
Ouvi uma história, certa vez, onde um rei, poderoso e muito rico, pretendia chegar à iluminação. Consultou toda sorte de magos e gurus e foi alertado para que olhasse para sua prepotência, talvez gerada pelo seus status e as muitas posses.
Considerou então a possibilidade de passar o trono a seu filho e despojar-se de todos os seus bens. Assim o fez, e sai a caminhar pelo mundo apenas com a roupa do corpo. Dormia onde podia, comia o que lhe davam, e meditava constantemente sobre a liberdade de nada mais possuir. Não precisava administrar mais nada, não se preocupava com a possibilidade de perder seus bens e valores, que fossem roubados ou não se multiplicassem.
Sentiu a felicidade de viver na simplicidade, sem o peso de tantas cobranças e responsabilidades. Admirou-se de si mesmo, de sua coragem ao trocar tudo aquilo que possuía por uma vida em busca da iluminação.
Então parou um dia num lugar muito distante de seu antigo reino. A paisagem daquele lugar lhe trazia paz de espírito. Um rio de águas límpidas corria à sombra das árvores que, carregadas de frutos exuberantes, lhe alimentavam. Encontrara o paraíso. Um tronco de velha árvore jazia ao lado do rio. Às vezes ele sentava-se no tronco a olhar para o rio e sentir a felicidade de sua vida simples. Às vezes, descia do tronco e entrava no rio para banhar-se.
Foi quando um viajante, também encantado com aquele lugar, resolveu parar e sentou-se no tronco ao lado do rio e ficou observando o velho rei dentro d’água. O rei, distraído so se deu conta da presença do estranho ao sair do rio. Vislumbrou o viajante sentado sobre o tronco onde ele costumava ficar quando meditava. Sentiu profunda raiva daquele estranho, e aproximou-se , irritado e gritando:
- Saia daí. Esse tronco é meu!
Só então se deu conta que abdicara de tudo o que era material, querendo livrar-se da prepotência que suas posses lhe levava a ter. Mas ainda sem nada ter, naquela ocasião, ainda tinha o sentimento de posse de um simples tronco de árvore.
Hoje se fala em reconstrução de valores que teriam sido pervertidos pelo excesso de consumo. O ter sobrepujou-se ao ser, os valores das pessoas passaram a ser medidos pelos sinais exteriores de prosperidade. Mas ainda que a situação econômica das pessoas fosse nivelada, ainda que um tipo de equiparação social fosse feita para que todos possuíssem as mesmas coisas, como se fosse a realização de uma ideia socialista (e utópica), ainda nos apropriaríamos de algo para marcar nossa individualidade.
O rei citado na fábula, assim como todos nós, nunca deixou a disposição interna de se apropriar de algo que o personalizasse. O ter nunca deixou de ser o caminho para que marcasse sua trajetória como indivíduo dentro de sua relação com os outros seres humanos. Creio que para nenhum de nós.
Não apenas bens de consumo. Não apenas objetos. Nos apropriamos de pessoas, também. Nos apropriamos de valores outros que nos dêem destaque entre os demais. Como mães de misses. Quantas pessoas se apropriam de alguém para que através dessa pessoa possam ser reconhecidas individualmente? A esposa de fulano de tal. Quando fulano de tal pensar em deixar a esposa ela terá a mesma atitude raivosa do reizinho egoísta. Ela é dona dele.
Nos apropriamos também da fama. Do nosso bom nome perante a sociedade. Nos apropriamos de tantas coisas palpáveis ou não, por constatarmos, no fundo de nossa alma nosso imenso vazio interior. O que de fato somos, e o que possuímos, na realidade? Quando, olhando pra dentro não vemos valor nenhum que nos destaque dos demais ( e de preferência, nos faça superior aos demais ) nos apropriamos de algo ou de alguém para suprir essa falta de valor interno.
É o homem feio e sem nenhum atributo de personalidade atraente que “compra” a companhia de uma mulher bonita. A beleza dele vai “cobrir” a feiura interna dele. É a mãe frustrada por não ter atingido alguma meta que desejava que tenta se realizar no filho a despeito do que ele queira de fato para sua vida. É o jovem que para se enturmar, faz misérias para obter aquele objeto de consumo que “todos os seus amigos têm”. Mesmo que precise infringir leis os sacrificar alguém para obtê-los.
O proprietário é vazio de si mesmo. Não constrói: vampiriza. Não cultiva: rouba os dons, os valores, as coisas dos outros. Fala-se hoje em leis espirituais, e em como essas leis, observadas atraem prosperidade. Aquilo que é externo pode vir a nós desde que se faça algo para apropriar-se disso. E no entanto somente temos mais daquilo que somos.
Aumentar valores internos constitui o único bem que vai nos trazer alguma coisa externa. O problema que nem todos gostamos da nossa própria natureza individual. Não gostamos de nós mesmos, do jeito que fomos feitos. E assim, atraímos sempre mais de nós mesmos, daquilo que não gostamos, para compensar nos apropriamos das coisas e valores dos outros.
Mas cabe aqui também pensar que mesmo que nossa natureza primordial, nossa essência, não nos agrade de alguma forma, detonando toda essa forma de agir equivocada, ninguém nesse mundo terá a capacidade de ser tão bom quanto nós mesmos quando se trata de expressar a própria natureza. Quem é hábil em alguma coisa, ainda que não goste disse, é a sua natureza. Foi como foi projetado por um Poder Superior. Ninguém será tão bom nessa habilidade para a qual ele foi feito pois essa é a natureza divida dentro dele e ela é imbatível.
Reconciliar-se com sua natureza primordial pode ser o caminho de crescimento. Valorizar a própria capacidade de ser no mundo elimina o vazio interior e prescinde a necessidade de se apropriar de qualquer coisa. Faz deixar de ser eterno coadjuvante da vida e ser o protagonista de sua própria vida. E, de quebra, livra do vampirismo e de qualquer tentativa de apropriação que alguém pretender fazer sobre nós.
Não se deve pensar em mudar ou ser de alguma maneira específica. Mas deixar-se acontecer e reconher em nós o que nos faz realmente especial e diferente de todos. Essa é a nossa mágica. E ela já veio pronta de fábrica.
Onde você esteve, quando tudo acontecia?
O mundo mostrava seu rosto, as coisas às vezes corriam
A vida passava depressa, enquanto você dormia.
Eu às vezes te sacudia; “Vambora, eu quero alegria”
Mas nada tirava você daquela letargia
Dormia e sonhava sonhos, ligados ao seu passado
Virava outra vez na cama, se dizia incomodado
Tudo parecia morto, entrava em seus pensamentos
Nada o que a vida pulsava, trazia contentamento
De novo voltava aos sonhos, com medo de acordar
Era como se eles trouxessem seu jeito de desabrochar
O ideal imaginado, nem tanto o que foi vivido
O mundo como queria, muito mais colorido
As tintas que carregava decerto não existiam
A inércia segura o pincel e parece que tudo enfim
Com sete cores se tingem, trazem vida no papel.
Sai do jeito que esperava. Pra que o mundo ruim?
Construir algo de bom? Não daria muito certo
Mas a vida continuava enquanto você dormia.
Aconteceu um incêndio. Mil bombas explodiram
Chamei pelo teu socorro, apenas você não ouvia
Nem grito, nem sussurro, te faziam suspirar
Uma flor especial, nasceu sem ninguém plantar
Um dragão sensacional, surgiu pra nos encantar
O E.T. no nosso quintal, veio nos visitar
Mas nada neste mundo fazia você acordar
Um dia pedi sua mão. Disse: não me aborreça mais!
Não vê que essa vida eu não quero? Isso não me satisfaz
Voltou as costas, então, quando mais eu precisei
Não quis saber do sol, nem da chuva que caía
Impotente pra fazer você comigo se entender
Tentei soltar sua mão, e vi minha pele colada
Chorei de dor tentando me desfazer do seu ser
Foi quando uma brisa suave entrou pela janela:
Um lindo tapete negro entrou voando por ela!
Pela última vez, então tentei acordar você.
Foi inútil o meu querer. Despi assim minha pele
Saí pela janela afora, com saudade do que ficou
Lembranças não apagam mágoas, minha carne,
deixei aí. Não sei se volto algum dia...
Porem, o que eu mais queria, não sei se ainda quero, mais
É preciso muito amor pra poder olhar pra tras
foram tantas frases não ditas, foram frases de amor
Que perdidas no tempo ficaram, lendas vãs em andamento
Enquanto você dormia, não sabia se era eu
Quem tanto me desprezava: chamava a sua atenção
Mas não me queria humilhar
De tudo que não existiu enfim desvaneceu
Mas nesses casos sombrios, havia obstinação
E pra não morrer no escuro, voltei para meu lugar
Sei que ainda sonha. Renitente no esperar
Alguma coisa talvez mude o seu modo de pensar
Mas tudo será lembrança assim que você acordar.
Pra que insistir em entregar bons sentimentos a quem não os quer? Pra que dar o melhor de si a quem nunca vai notar sequer a sua presença? O medo de se abrir ao novo, ao que nutre, ao que faz bem está de mãos dadas com a obstinação por aquilo que não nos recebeu como queríamos. Mas o pior medo, é que meu próprio coração descubra que perdeu tempo com aquilo que é bem menos que eu mesma...
Uma linda história contada pelos irmão Grimm, fazia minha delícia na infância. Era uma história triste mas eu adorava ler e reler sobre a meninas dos fósforos. Naquela época,(na época dos irmãos Grimm) as histórias infantis não eram o tatibitate que às vezes damos a nossos filhos a ler. Histórias chamavam à realidade, nem sempre bonita e poética, com bichinhos espertos e politicamente corretos ensinando a economizar água.
Crianças, eram seres que tinham curta infância (quase nem dá para pensar nisso hoje, com a adolescência quase chegando aos 30 anos). Pessoas viviam menos tempo, a infância era curta e logo tinham que tomar contato com a realidade.
Chapeuzinho vermelho, por exemplo nunca soube que havia um caçador para salvá-la. Teimou em andar pela floresta e terminou “jantada” junto com a vovozinha...e fim da história. Tempos em que as mães, cheias de filhos, morriam cedo, quase sempre de parto. E madrastas, quase meninas, disputavam com as filhas de seus maridos um pouco de atenção.
Os irmãos Grimm recolheram essas histórias pesadas, onde madrastas mandavam tirar o coração de princesas à faca, e trouxeram um pouco mais de suavidade e poesia àquela realidade tão dura. Mesmo assim, algumas histórias contam o puro sofrimento de crianças enfrentando o mundo, quase sempre sozinhas.
Na história da menina dos fósforos, ela era obrigada a vender fósforos pelas ruas e entregar o dinheiro ao padrasto, beberrão e mau. Sem poder voltar pra casa de mãos vazias, numa noite de natal, tentou vender suas caixinhas. Olhava pela vitrine de caros restaurantes, esfomeada, e sentindo a neve cobrir-lhe os pés, até ser enxotada dali.
Vagou entorpecida pelo frio, com medo de voltar com as caixas e sentou-se no meio fio. Pensou: vou acender um fósforo. Só um, e assim o calor do fogo pode me aquecer as mãos e posso senti-las de novo. Ascendeu o fósforo, tentando passar a chama sobre as mãos endurecidas e arroxeadas. Como não teve o êxito pensou: só mais um...
Vendo que não conseguia se aquecer, resolveu acender dois de uma vez. Naquela chama maior, viu a mesa que momentos antes admirou pela vitrine do restaurante. Na pequena luz da chama, viu muitas crianças, vestidas com boas roupas, e acenavam para que ela entrasse e participasse da ceia...A chama apagou-se. O sonho apagou-se também. Sem pensar muito acendeu mais dois fósforos e voltou à ceia festiva. Que delícia, aquele peru. Lhe ofereceram doces, depois. E assim, antes que a chama apagasse ela acendia outro e outro, para que o sonho não lhe abandonasse naquele frio.
Até que uma caixa acabou. Pensou no castigo que sofreria ao voltar com uma caixa a menos. Fez uma pequena oração à Nossa Senhora, que, naquele natal certamente não
deixaria de ouvi-la.Sentindo mais confiança na divina providência arriscou-se a acender mais um fósforo. Pensava em voltar à ceia mas aquela chama lhe trouxe a imagem de Nossa Senhora lhe consolando. Ficou comovida e novamente tomada da compulsão foi acendendo todos os fósforos da caixa. Precisava pedir à mãe do menino Jesus uma coisa: sentia tanta saudade de sua mãe, que deveria morar no céu. Não poderia vê-la? Só um instante?
Os fósforos estavam acabando quando sua mãe lhe apareceu na pequena chama. O desespero da menina pedindo que ela não se fosse, que não a deixasse ali a fez acender todos os fósforos de uma vez. “Me leve com a senhora, por favor!” Talvez tenha sido milagre de natal quando sentiu as mãos delicadas de sua mãe lhe puxando e a apertando contra o peito... Não tinha mais frio. No dia seguinte, encontraram a menina dos fósforos estirada inerte na neve. Morrera acendendo todos os fósforos que trazia.
Essa história atravessou os séculos e ainda hoje acontece com centenas de meninas, de crianças, de jovens, mulheres, homens...Acendem também apenas um fósforo para aquecer o frio da alma, das dores, do medo, da solidão. Apenas um. Para mergulhar num sonho que lhes anestesie a dor. E essa dor vai aumentando com a culpa e no circulo vicioso que lhes faz acender mais um, e outro...
O contato com a dureza da vida vai ficando mais difícil de suportar depois de vislumbrar o conforto ilusório. E assim, o desconforto material é esquecido, a coragem vai aumentando, e cada vez mais fósforos são acesos. Até que nada mais de material (ou aquilo que faltava )lhes incomoda. Mas a dor da perda do calor de Deus aumenta insuportavelmente. E mais uma vez, sem nenhum medo, vão acabando com as caixinhas de fósforos, compulsivamente.
Até que um dia o amor que lhe foi negado até mesmo pela compulsão, aparece ilusóriamente na chama acesa sem que possam pensar mais em nada. Fico pensando na organização do Universo, que há séculos trouxe essa hitória humana, para percebermos que o ser humano muito pouco mudou em tanto tempo.Apenas, os fósforos hoje acendem a química que traz a ilusão. O primeiro trago, o primeiro tiro... Sempre houve o primeiro. Só um.
Penso em todos os amigos que se foram assim. Em qual sonho ou pesadelo estaariam quando o coração parou de bater? Esses sonhos em pouco tempo viram pesadelos. Onde se sentem perseguidos, maltratados. Impossível livrar-se com facilidade, depois de algum tempo.E nem é um tempo longo...
Quanto amor nos falta dar,quantos abraços nos falta compartilhar para que esse exército de crianças esfomeadas e entorpecidas pelo medo não morra acendendo compulsivamente os fósforos da ilusão? Podemos pensar: mais amor que dei a meu filho? Cada gesto errado que ele faz e nós silenciamos, é falta de amor. Cada vez que não temos tempo nem energia para dar limites, é falta de amor. Cada vez que cedemos a todas as vontades dele, querendo suprir nele nossas carências e faltas, é falta de amor.
O mundo perdeu o controle da vida. E a vida vai sempre procurar a chama de um fósforo para ficar mais colorida. Apenas alguns não conseguem ficar sem essa luz, depois. E nenhum de nós é capaz de dizer quem é assim.
O frio da alma de tantos, tem varrido tantos de dentro de suas casas, de suas famílias...Todos estamos ligados, portanto todos sofremos as consequências do desamor. Aquele que não era de beber, morre num acidente causado por alguém embriagado. Outro sofre uma violência que partiu de quem nem conhece. Crianças nascem já sofrendo a consequência de quem foi acender seus fósforos, com o medo de cuidar dela.
Contem a historia centenária da menina dos fósforos a quem você gosta. O ato de acendê-lo é tão arraigado nos nossos costumes que passam despercebidos. Pode ser que seu amor não volte mais dos seus sonhos. Há um longo caminho inverso para percorrer. Então vamos tentar caminhar juntos, de volta pra casa.
A mídia tem divulgado o conceito milenar das almas gêmeas. Há muito tempo as pessoas procuram com empenho a realização emocional, de seus sonhos românticos, e vêm neste conceito de almas gêmeas um ideal a ser alcançado.
Este conceito baseia-se na lenda de que os seres foram criados macho/fêmea, num único corpo, a complementaridade era natural, até que os deuses, como forma de punir ou de incentivar o desenvolvimento humano, separou estes seres em dois seres de sexos opostos e desde então uma metade anseia pela outra, a busca constantemente e só encontra sua realização completa quando a encontra, no decorrer de diversas existências. Uma vez que são partes do mesmo ser, são complementares, e “encaixam-se” perfeitamente, sem esforço, apenas se fundindo na plenitude de um ser único.
Eu coloquei acima que os deuses separaram essas metades como forma de punir ou de incentivar o desenvolvimento humana. Ora, se o ser encontra-se em estado de plenitude, não tem o impulso natural de buscar outros elementos que o satisfaça, de construir outras relações, outros interesses, afinal está saciado e em paz. Inerte.
Punição, pela inércia, se considerarmos que este antigo conceito ainda data de uma época em que os deuses eram criaturas voluntariosas e iradas, que puniam alguma atitude que consideravam inconveniente. A inércia, o estado de plenitude já traz em si o declínio e a decrepitude da vida. A “punição “ da vida, é a morte desse ser, já que a vida implica necessariamente em movimento.
Mas nos tempos atuais, onde Deus não é mais aquele velho barbudo e resmungão que se ira com facilidade pelos erros humanos, pensamos que este estado de constante plenitude e inércia não contribui em nada para a evolução dos homens, individualmente ou para a humanidade inteira. São construiríamos nem evoluiríamos nada neste estado contemplativo e “feliz”. Então a bondade divina nos levaria a este “corte” com nossa outra metade a fim de que um coração sempre aflito em busca de sua outra metade pudesse encontrar diversas experiências, e assim, enriquecesse sua vida, caminhando passos largos em seu processo evolutivo e finalmente, como recompensa, encontrasse a plenitude, fundindo-se de novo com sua metade, igualmente mais amadurecida e evoluída.
Lindas estórias, com algum fundo de verdade, afinal a verdade mora sempre dentro de cada um de nós. Este conceito de almas gêmeas pressupõe a aceitação de várias existências ao longo do tempo. E o conceito de almas afins também precisa ser colocada desta maneira.
O amor tem uma característica básica, que pouco percebemos apesar de que esta característica embasa todos os conceitos que temos do amor: ele tem começo mas não fim. Não se deixa de amar algo ou alguém. Se isso acontece havia outro tipo de sentimento ali, mas não amor genuíno. Diga a uma mãe que ela deve tornar-se indiferente a seu filho de quem cuidou com desvelo por anos a fio, seja qual for o motivo. Ela lhe dirá ser impossível permanecer indiferente a seu amor. A indiferença é o verdadeiro oposto ao sentimento de amor. Amor verdadeiro não cessa. Definimos Deus como amor puro e absoluto. E dizemos que Ele sempre existiu e existirá.
No início das encarnações, as pessoas colocadas juntas numa mesma experiência e com o mesmo tempo de existência, desenvolveram sentimentos gregários, afetivos umas com as outras. Posteriormente, em outras encarnações passaram a reencontrar seus afetos aqui e ali, trazendo a reconfortante sensação de familiaridade, paz e aconchego e definiram estar ali na presença de quem sempre foi seu amigo. Como disse uma vez Vinícius de Moraes: a gente não faz amigos, os reconhece.
A estas almas que aqui e ali se reencontram, formar grupos. Afinal, estes laços foram estabelecidos primordialmente em grupos. São almas afins. Deste conceito, se ouve falar sobre “diversas almas gêmeas” não teríamos assim apenas uma alma gêmea, mas várias, como no livro”Brida” de Paulo Coelho.
De qualquer forma, são mais verdades conhecidas pela alma mas não reconhecidas necessariamente pelo ego.
Acredito que o conceito de almas afins seja o único válido. Porem, deve-se considerar algumas coisas. As pessoas se desenvolvem ao longo de diversas encarnações dentro de seu próprio ritmo e tempo. O que uma absorve com facilidade, outra leva vários séculos para fazê-lo. A bondade divina, que nos presenteou com o livre arbítrio e nele nunca interfere, sempre aguarda e auxilia e tomarmos as melhores decisões, como um jardineiro paciente vai cuidando do formato que suas plantas tomam mas não direcionam seu desenvolvimento de forma incisiva. Hoje é uma poda aqui outra lá, adubo, incremento das raízes, e a planta vai tomando um aspecto único que a difere de todas as demais da espécie. Somos também únicos, nossas experiências nos dão o formato com a ajuda do Bom Jardineiro...
Acontece que nos dias atuais, onde temos quase tudo pronto ou pré-preparado, onde dispomos de pouco tempo para esperar o que quer que seja, onde a mentalidade está sendo guiada para um “seja feliz hoje”, o conceito de alma gêmea se encaixa que é uma beleza. Afinal, é uma parte de nós que não precisa de ajustes, que nos compreende perfeitamente sem precisarmos explicar, (afinal, somos exatamente a mesma natureza) Então se torna lógico que busquemos o pronto que em algum lugar nos espera e anseia por nós da mesma forma.
Relacionamentos envolvem tantos aspectos, tanta renúncia e crescimento, que dói. Alma gêmea não teria que doer, já está lá prontinha, sorridente esperando por nós para desfrutarmos a plenitude. Isso equivale a encontrarmos o “paraíso” e sua peculiar inércia... Coisa totalmente contrária ao amor. Afinal o amor é vivo e nunca tem fim. A inércia já traz o fim em si mesma. Contraria o conceito de amor.
Portanto, pra mim, o conceito de almas gêmeas é uma linda história que nos impele a buscar, a querer, procurar, e com isso vamos nos desenvolvendo, caminhando, aprendendo...
As vezes encontramos alguma alma afim e a caminhada fica de certo modo um pouco mais fácil, mas nem sempre. Somos plantas únicas, cada uma diferente das demais de sua espécie, é inevitável um choque aqui outro ali.
Mas até para reencontrarmos uma alma afim com fins românticos, é necessário muito empenho, vontade de crescer, de saber renunciar, de exercitar o convívio, que por si só já é um grande exercício de desenvolvimento. Isso, das duas partes.
Esses dias ouvi uma história real e comovente. Um soldado partiu para a guerra, estando recém casado. No país em que foi guerrear encontrou outra jovem, apaixonou-se por ela e pediu o divórcio à esposa pela embaixada e a comunicou por carta que estava se divorciando e casando com outra. Teve filhos com a nova esposa e acabou morrendo na guerra. A nova esposa teve imensa dificuldade de prosseguir cuidando das filhas num país em guerra. Comunicou o falecimento do marido à ex-esposa dele, que, penalizada com a situação das crianças, passou a enviar ajuda financeira às filhas de seu ex-amor. Como a situação da guerra ficou pior, trouxe as crianças para viver com ela em seu país. Eram as filhas dele com outra mulher, filhas que ele não deu a ela. Mas as crianças sentiam falta de sua mãe e esta mulher mobilizou-se politicamente até conseguir trazer a mãe dessas crianças também para seu país, longe da guerra... Que era alma gêmea de quem ali? Mas sem dúvida, é uma história permeada de amor incondicional.Amor verdadeiro. Um grupo de almas afins, com certeza.
Se ao lermos esta estória pensarmos: nunca seria capaz de ajudar a mulher que “roubou” meu marido, será que sabemos tanto de amor? Será que nos desenvolvemos a ponto de merecer um amor absoluto? Com certeza ainda nos falta muito para caminhar neste terreno sentimental, mas à procura de nossa alma gêmea, conseguiremos pelo menos chegar ao paraíso do amor incondicional, levados por nossas almas afins. 
“I might understand you" - Give me Love
- Você entendeu o que eu disse ?
- Sim, você quem não entendeu.
- Não era com você.
- Sim, eu sei. Você quer entender a Deus. Isso é que não é possível.
- Quero entender o que Ele quer para mim, o que quer que eu faça, merecer sua graça...
- Esse é o desejo de muitos. É bom. Só disse que isso não é possível. Todas as vezes que quis entender Deus, acabei numa terrível queda de braço com Ele...
- Não estou brigando com Ele. Apenas quero entender sua vontade...
- “Entender” é que não é possível. Sempre que eu tento entender algo ou alguém, atrás disso eu quero me aproximar, me enovelar, para manipular...É natural do ser humano, compreender para sentir-se confortável, próximo, e assim dar a sua versão. Quem sabe ela não é aprovada?
Me desgastava tentando compreender a natureza divina. Esquecia que uma pobre mortal que mal se conhece jamais poderia compreender mínimamente que fosse, a Deus...
Enfim, cansada, estropiada pelas lutas da vida, me rendi a essa verdade:
“Eu não posso compreendê-Lo, mas posso aceita-Lo como Ele se mostra."
- Como Ele se mostra?
- Ele não é um ser invisível. Nesse mundo de matéria, vive em cada coisa que vive e respira. Você consegue compreender seu irmão? Seu vizinho, sua mulher, seu cachorro?
- Mal podemos compreender a nós mesmos!
- Pois é. Não podemos compreender nada nem ninguém, pois tudo faz parte Dele! Mas podemos aceitar cada ser como é, apreciar Sua beleza como se mostra em cada um. Sem tentar modificá-Lo, sem tentar seduzi-Lo ou fazer que nos faça nossas vontades.
À medida que consigo fazer isso mais vezes, que eu consigo respeitar tudo aquilo que vive, eu aceito a vontade de Deus. Eu não preciso entender Sua vontade. Apenas aceitá-la. A cada dia. Em cada pessoa, em cada ser que respira.
Os fatos vão acontecer independentemente do que eu faça. Cada um, como numa grande orquestra, vai tocar sua parte da melodia. Quando eu aceito a proposta desta canção, eu posso tocar junto e enriquecer a música. Ou brigar com ela, achá-la feia, e desafinar todo o conjunto. Mas ela será tocada assim mesmo.
- Talvez por isso o mundo anda tão desafinado...
- Talvez sim. Mas sem dúvida, e por vontade Dele, todos um dia tocaremos a mesma canção...Não sabemos quando, mas será a mais bela canção do mundo.
- Para a música de paz, harmonia...
- Aceitar é preparar a harmonia. Não, meu amigo. Não queira entender. Apenas toque junto. Dance. Divirta-se com o som que Deus lhe dá. A cada dia, uma nota. A cada ano uma frase. Talvez, quem sabe, no final de nossos dias saibamos entender como se toca. Este não é um mundo para ser compreendido. Mas um mundo onde se aprende a fazer a música com harmonia. Deus é a música, e essa nunca tem fim.
Amo você, sem culpa e sem dolo
Não por ser quem você é, mas pelo que eu sou
Porque quando vim ter neste mundo
Existia uma ordem para que eu amasse a mim mesma
Porem, tinha apenas olhos que miravam à frente
E medo de olhar o escuro que há por dentro
Assim, Ele me deu você de presente
Para que olhando em seus olhos, eu visse a mim
E me deu um coração pra amar
Olhos de ver, e um sonho pra sonhar
E olhando pra você vi todo o meu melhor
E também o que de pior eu tinha
Não nos fez gêmeos de alma
Porque cada criatura é única no universo todo
Mas nos fez iguais no bem e no mal
Nas angustias e alegrias, no medo e na ousadia
E assim, vendo seu medo eu poderia me ajudar
Vendo sua dor, a minha eu poderia aplacar
Vendo sua doçura, em mim poderia confiar
Vendo sua bela alma, a minha poderia começar a amar
Seus lindos olhos claros foram meu espelho
E no seu forte abraço eu me aninhei feliz
Como posso te fazer entender
Que eu o conheço porque é um pedaço de mim?
Amor é senda que começa e nunca termina
Porque traz à tona toda a essência de cada um
Nunca vai acabar porque Deus só cria o eterno
E faz a vida sempre caminhar para frente
Quando amo você com tudo o que pode ser
Em mim aprovo tudo o que puder vir a ser
E assim se cumpre a missão que recebi
De evoluir, crescer e existir
Você é muito mais que pensa ser
Eu sou muito mais do que ouso ser
Juntos poderíamos tanto...
Mas mesmo longe, somos mais do que éramos
Há poucos meses atrás.
Há muito tempo eu tive um sonho curioso. Daqueles sonhos que a gente acorda e tem a impressão que ele continua se desenvolvendo. Sonhei que estava numa mata muito bonita, e ouvi barulho de água. Fui na direção do som e encontrei um rio. Sobre ele, uma ponte com o guarda corpo de ferro todo trabalhado como se fosse uma peça feita no século XIX.
A ponte era de madeira e a paisagem era de tirar o fôlego. Quis subir nela. Mas aí acontecia o fenômeno: Pequenas plantas que estavam na extremidade da ponte, cresciam de repente. Enchiam a ponte de arbustos floridos e cheios de espinhos, impedindo a passagem.
Quando eu desistia e voltava atrás, os arbustos desapareciam, e só aumentavam e se avolumavam quando eu me aproximava da ponte. Notei que da água saía som. O mais curioso era isso: eu via na água a sombra de peixes. Um cardume imenso. E os peixes cantavam. Não me lembro mais qual era a música, mas era uma ária lírica.
Aquela paisagem, a música, e o fato de não poder atravessar a ponte de enchiam de ansiedade. Mas eu precisava ficar à margem do rio, apreciando a beleza, sem tocá-la. E em silêncio.
O sonho me acompanhou por semanas. Em vão eu ia dormir pensando nele, para quem sabe continuar sonhando e finalmente conseguir atravessar a ponte. Naquela época eu era apenas uma menina. Até hoje a lembrança deste sonho me acompanha.
Hoje, madura, percebo que aquele sonho era a representação do que é viver. Nem sempre conseguimos atravessar as pontes. Nem sempre conseguimos fazer parte da paisagem. Mas nada impede que possamos apreciá-la. Se dermos ouvido também àquilo que não é provável, como peixes cantando, podemos também ouvir a música da vida.
Temos um costume arraigado de enxergar apenas aquilo que os olhos estão acostumados a ver. O improvável e o impossível nos passa completamente despercebido. Peixes não emitem sons. Mas se não formos impedidos de alguma forma a simplesmente emitir nosso parecer cheio de certezas e continuar adiante, dando nomes conhecidos a bois reconhecidos, nunca saberemos utilizar a fé.
Precisamos parar. Observar a paisagem, sem capturá-la e encaixotá-la com um adesivo que a classifique. Deixar acontecer, não esperar pelo minuto seguinte. Pelo que vem depois. Pelo que achamos que já sabemos como é.
Fiquei observando minha netinha explorando o mundo como quem abocanha um fruto suculento e se espanta com o sabor inesperado. Esta sede de conhecer o mundo e suas inúmeras facetas, a gente vai perdendo pelo caminho. Um belo dia já nem sabemos mais olhar com olhos serenos um ângulo mais ousado da vida. Nos amedrontamos. Não está no script já decorado. Passa a ser uma ameaça qualquer coisa que não podemos classificar porque não conhecemos. Nos fechamos então na torre do preconceito.
Creio que eu deva pedir a Deus, olhos de ver. Apenas isso. Como no sonho, quando fiquei à margem do rio ouvindo a música insólita dos peixes cantores. E apenas ouvi porque fui parada a tempo. Jesus Cristo, numa passagem descrita na Bíblia, quando opera o milagre da multiplicação dos pães e dos peixes, um momento antes de fazer o milagre pediu isso: para que a multidão de acalmasse e se sentasse.
Não pode haver milagres sem fé. E não há fé quando há ansiedade. E a ansiedade nos conta com pormenores tudo, mas tudinho mesmo que pensamos ser as verdades absolutas. E portanto, estrangulada pelas nossas certezas, nossa realidade nunca se modifica. Não há mais lugar para a fé. Nem lugar para milagres.
Quando há fé, vinda um momento antes da serenidade, os peixes podem cantar. Mas para isso, precisamos parar. Deixar acontecer. Que no ano que se iniciará, possamos parar. Ter olhos de ver. Contemplar a real natureza das coisas, sem ansiedade. Desenvolver a serenidade necessária para que possamos ter fé.
Que o novo ano seja pleno de milagres!!!
Essa história não é minha. Mas é uma fábula tão bonita que gostaria de recontá-la:
"Um homem de bem obteve a graça de poder visitar os lugares onde faria seu descanso após as lidas nesta Terra. Um anjo acompanhou o homem que pediu para ver primeiro o inferno.
Chegaram a um lugar cheio de choro e lamentações. Muitas pessoas estavam em círculo em volta de um caldeirão , onde fumegava uma perfumada sopa. Capatazes com chicotes nas mãos afugentavam aqueles que, desesperados tentavam se aproximar do caldeirão para saciar a fome.
Nas mãos de cada pessoa havia uma colher com um longo cabo, com a qual tentavam apanhar um pouco da sopa, porém, o cabo longo demais, impedia-os de levá-la à boca. Assim, derramavam a sopa quente uns sobre os outros, conseguindo assim, aumentar a balbúrdia, a fome e o desespero.
O homem ficou compadecido e pediu ao anjo que o transportasse ao céu. Sentia-se mal ao presenciar tão degradante cena. O anjo o atendeu prontamente. Rumaram então ao ceu.
Para a surpresa do homem, o local era exatamente igual ao que vira no inferno. O mesmo caldeirão, com a mesma sopa perfumada. À sua volta, em círculo, pessoas felizes e bem alimentadas se confraternizavam. Em suas mãos, as mesmas colheres com longos cabos. Tinham aprendido a mergulhar a colher na sopa e alimentar a pessoa imediatamente à sua frente. Assim, todos dependiam uns dos outros. Todos repartiam entre si o alimento, e eram gentis uns com os outros.
O mundo era o mesmo. A atitude dos homens é que era diferente.Então, aquele homem de bem soube que Deus dá exatamente as mesmas coisas a todas as pessoas, sem distinção. A atitude de cada um é que determinava seu gozo ou sua punição."
Que nossa necessidade de viver socialmente nos traga sempre o paraíso às nossas vidas. Que possamos compreender que nunca estamos sós. Que fazemos parte de uma imensa teia chamada vida, e ela é tão bela quanto conseguimos ser belos em nossas mentes.